Conta a história que a cidade de Tavira (a antiga Tabilla dos árabes) foi conquistada três vezes pelas forças cristãs. A primeira em 1189 por Sancho I; a segunda em 1239 por D. Sancho II e a terceira em 1242 por D. Payo Peres Correia. O presente auto refere–se a essa ocupação, narrada por um velho mouro a seu neto, já no Norte de África, passados muitos anos após a conquista cristã.

Personagens:
Avô: Ali Yussef – 80 anos
Neto: Ibn Said – 10 anos
(Sobre o terraço de uma casa, ambos contemplam o mar)

Neto – Ó avô, até onde chega o mar?
Avô – (Sorrindo brandamente) O mar, meu querido Ibn Said, não tem limites. Vai longe, longe, longe; depois junta–se ao céu e caminha até às estrelas.
Neto – (Supreendido) E não se derrama?...
Avô – Derrama–se, sim, em forma de chuva.
Neto – Mas a chuva é doce e o mar é salgado.
Avô – (Acenando com a cabeça) Podemos agradecer a Alá cuja sabedoria é infinita.
Neto – Mas dizem que há outro Deus com sabedoria igual.
Avô – Sim, dizem. É o Deus dos cristãos, Pai dum pregador chamado Jesus.
Neto – (Pensativo) E Alá é Pai de Maomet! (com curiosidade) Ó avô, então o mundo tem dois deuses?...
Avô – (Sorrindo) Até mais, meu querido.
Neto – (Abrindo muito os olhos) Que me dizes?...
Avô – A verdade. Existem mais Deuses.
Neto – (Incrédulo) Mais?...
Avô – Exactamente: os nórdicos têm Odin e os chineses têm Confucio. Cada um dá–lhe o nome que quer. Mas ao fim e ao cabo tudo se resume ao mesmo espírito.
Neto – Então porque guerreiam?
Avô – Porque outros interesses mais altos se levantam. Os desejos do poder, da conquista e da ganância.
Neto – Estiveste em alguma guerra?
Avô – (Acenando afirmativamente) Estive, sim, quando os cristãos conquistaram a Al–Garb.
Neto – Onde ficava o Al–Garb?
Avô – No extremo sul de uma grande província chamada Al Fagar, que se estendia até à Andalucia e que tinha como capital a maravilhosa cidade de Chelb (Silves).
Neto – (Interessado, puxando pelo albornoz de Ali Yussef) Conta, conta.
Avô – Oh!, foi há tantos anos que a minha memória já custa a recordar. Vivia eu então em Tabilla (Tavira) e era casado com a tua avó Zinaida.
Neto – A avó que morreu?...
Avô – (Com os olhos húmidos de lágrimas) Sim...a avó que morreu! Ai, Ibn Said, como ela era linda nesse tempo. Tinha uns olhos negros, grandes como amêndoas e o ser corpo harmonioso cheirava a alfazema. Quando falava, a sua voz assemelhava–se ao arrulhar de uma pomba e a sua boca era doce como tâmaras do planalto do Atlas. (sacudindo a cabeça) Mas para quê recordar uma época tão distante.
Neto – (Tornando a puxar pelo albornoz) Conta avô, conta. Como foi a guerra?
Avô – A guerra, meu filho, foi dura e cruel. A norte de Al Fagar havia um reino denominado Portus Cale, cujo rei era Sancho I, filho de Afonso Henriques.
Neto – Esse Afonso Henriques foi o que nos tirou Lisboa? Disse–me o meu mestre...
Avô – Foi ele, efectivamente, com a ajuda dos Cruzados.
Neto – Também já ouvi falar dos Cruzados. Como eram eles?
Avô – (Com um estranho brilho nos olhos) Oh, eram homens rudes e ferozes, que atacavam sem dó nem piedade. Vestiam cotas de malha de aço e por cima tinham vestidos bibes brancos com uma grande cruz vermelha.
Neto – Então também eram cristãos?...
Avô – Pelo menos assim se proclamavam, fazendo expedições à Terra Santa por determinação dos Papas.
Neto – (Enrugando a testa) Quem eram os papas?
Avô – Os Papas são os Senhos da Igreja Católica. Vivem em Roma, em palácios sumptuosos e empurram outros para essas empresas a que chamam Guerra Santa.
Neto – Como pode haver uma Guerra Santa?...
Avô – Claro que não pode, mas os homens assim o querem, invocando os nomes de Cristo e Maomet. (Fitando a linha do horizonte) Nessa altura vivia eu em Tabilla, pequena cidade do lindo Al Garb onde nasci. Era uma terra erguida sobre colinas e encimada sobre um castelo altaneiro, que dominava toda a paisagem. A seus pés o Rio Cékua, vindo lá das montanhas sagradas, desaguava no Oceano Atlântico; e circundando o olhar viam–se maravilhosos pomares de frutas saborosas e perfumadas.
Neto – Devia ser bela a cidade de Tabilla!...
Avô – Oh, sim! Era uma urbe onde toda a gente se conhecia e estimava, terra de poetas e pensadores, como Chelb. O povo vivia sereno e feliz até que um dia...
Neto – Continua, avô, continua...
Avô – (Cerrando os punhos de indignação) Até que um dia perdemos a nossa cultura e liberdade. Em certa manhã do ano 1189 da Era Cristã, vimos com espanto e terror uma enorme armada a subir pelo rio enquanto que pelo lado da terra, um imenso exército vinha marchando sobre a nossa vetusta cidade.
Neto – (Encolhendo–se) Que medo.
Avô – Sim, muitos tiveram medo. No entanto, os mais afoitos gritavam de indignação, ao saber que aqueles guerreiros iriam saquear Tabilla.
Neto – Saquear?...
Avô – De certo, meu querido Ibn Said. Tal como já o haviam feito em Chakrach (Sagres), Zawala (Lagos), Albur (Alvor), Chelb (Silves), Porcimunt (Portimão), Albuera (Albufeira) e Pharum (Faro), agora apresentava–se–lhes Tabilla com as suas propriedades e riquezas. O Rei dos Lusitanos, Sancho I, querendo terminar a obra do seu pai, resolvera levar de vencida todos os maometanos existentes no país; e daí ter pedido a colaboração dos Cruzados, cuja armada se encontrava no Tejo, pronta a partir para o Mediterrâneo.
Neto – Nesse caso os Cruzados não eram portugueses.
Avô – Não. Eram bretões, normandos e flamengos, que com a capa da Cruz de Cristo cometiam as maiores atrocidades. Para evitar que isso acontecesse, o nosso chefe Albaíno, primo do Kadí de Chelb rendeu–se, tendo Sancho I tomado conta da cidade. Foi a primeira vez que Tabilla deixou de ser árabe.
Neto – Então foi mais vezes?...
Avô – (Surpreendido) Exactamente. Ainda mais duas. (pausa). Este foi o primeiro dia sem Alá!... Felizmente que a ocupação durou pouco tempo, porque o nosso determinado Yacub–al–Mansur ao saber do acontecimento, partiu do Norte de África com um poderoso exército e reconquistou todas as terras do Al Fagar que estavam sob o domínio cristão.
Neto – (Batendo palmas) Ah, valente filho de Mafoma!
Avô – Podes dize–lo, porque foi de facto um guerreiro extraordinário. (respirando fundo) Os anos foram passando e em 1239 mais uma vez o Al Garb foi invadido pelos infiéis.
Neto – Não desistiam?...
Avô – Nunca desistiam. Esta região era como um espinho que se lhes tivesse atravessado na garganta. Desta vez, o exército era comandado por Sancho II, neto do primeiro rei que havia tomado Tabilla. Tinha vindo por aí a baixo, rente ao rio Guadiana e conquistando todas as praças fortes, como Elba (Elvas), Jerumenha (Jerumenha), Serpius (Serpa), Mirtilis (Mértola), Cacilla (Cacela) e por último Tabilla. Foi o segundo dia sem Alá...
Neto – E tu, avô, que fazias?
Avô – (Sorrindo tristemente) Assistia a todos estes dramas com o coração apertado. Mas de que me servia rebelar? Ao menor indício de rebelião, os cristãos cortavam–nos a cabeça.
Neto – (Malicioso) E sempre era melhor conservá–la!...
Avô – Tens razão. Por conseguinte suportávamos o seu domínio com resignação; quem não estivesse satisfeito podia abandonar o país.
Neto – E quem governava a cidade nessa altura?
Avô – (Com um gesto nervoso) Não me faças lembrar. Era um homem terrível, um guerreiro fabuloso que media seis pés de altura e cuja fama já havia ultrapassado as fronteiras do Guadiana. Chamava–se Payo Peres Correia, era Mestre da Ordem de Santiago e o rei tinha por ele uma admiração sem limites.
Neto – (Abrindo a boca de admiração) Pelas barbas do Profeta! Seis pés de altura? Era um gigante...
Avô – (Concordando com um aceno de cabeça) De facto, assim era. E ainda por cima tinha sob o seu comando um grupo de cavaleiros que lhe obedecia cegamente. Constava até que ele tinha poderes sobrenaturais, ao ponto de o povo o adorar e temer. (Pausa) Pois foi Payo Peres Correia o causador do terceiro dia sem Alá!...
Neto – (Cheiro de curiosidade) Como foi, avô?
Avô – (Tornando–se muito sério) Nunca mais poderei esquecer esse dia da Era de Cristo: 11 de Junho de 1242. A história conta que sete cavaleiros da Ordem de Santiago foram mortos à traição, mas é mentira. Somente um o foi; e mesmo assim não à traição, mas sim em legítima defesa.
Neto – Numa luta leal?
Avô – Sim, numa luta leal. (contando com a voz muito emocionada) O cavaleiro em questão, já há muito que perseguia uma linda moura que vivia em Tabilla, para fins amorosos. Mas ela era casada e respeitava o seu senhor; e sempre repudiou as arremetidas do cristão. Até que um dia, este, louco de desejo, penetrou na casa da bela mourisca e tentou subjuga–la. Nesse momento, porém, apareceu o marido e travou–se uma luta de morte, vindo a lume o anseio de vingança, da liberdade e da justiça. O infiel foi vencido e o mouro agarrando na mulher correu até à praia. Chegados lá, tomaram lugar num barco e fizeram–se ao mar, rumo a Marrocos. Ele era pescador e sabia guiar–se pelo sol e pelas estrelas. E assim chegaram aqui nunca mais voltaram a Tabilla.
Neto – E que aconteceu a Payo Peres Correia?
Avô – (Estremecendo). Oh!... Segundo consta, e ao tomar conhecimento da morte do guerreiro, pôs a cidade a ferro e fogo. Aliás, os cristãos aproveitavam o mais leve subterfúgio para atacar os muçulmanos; e desta feita o Mestre da Ordem de Santiago não se fez rogado, destruindo tudo à sua passagem. Ainda hoje esse dia é lembrado com tristeza e repúdio por todo o povo árabe.
Neto – (Intrigado) Mas...diz–me, avô: como se chamava esse mouro que teve a coragem de se opor ao cavaleiro da Cruz de Cristo?
Avô – (Chorando) Esse, que foi culpado pelo banho de sangue? Esse, que por amor à sua mulher, pelo desejo de vingança, pela ânsia de liberdade, matou o invasor?... Esse, que...
Neto – (Abraçando–o comovido) Não digas mais, avô. Já adivinhei tudo!...



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